O tempo não para na Sociedade Viva Cazuza


POR GEOVANA FERREIRA 


Lucinha Araujo e seu filho,Cazuza. (FONTE: ARQUIVO PESSOAL LUCINHA ARAÚJO)


A HISTORIA DE UMA MÃE QUE COM PERDA PRECOCE DE SEU FILHO ARTISTA PARA A AIDS TRANSFORMOU A SUA DOR EM SOLIDARIEDADE.


O Brasil todo acompanhou o sucesso estrondoso, a doença repentina e a morte do filho dela. Lucinha Araújo,a corajosa mãe do cantor Cazuza, perdeu seu único filho há 27 anos, vítima da AIDS, uma das primeiras figuras públicas de influência no Brasil a admitir ser portador do vírus.Desde que ele morreu,em sete de julho de 1990,sua mãe é a maior responsável por manter vivo o nome de seu filho e seu legado como cantor.

O trauma pela sua perda fez com que Lucinha fundasse, há quase três décadas, a Sociedade Viva Cazuza — uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo proporcionar uma vida melhor às crianças e adolescentes soropositivos por meio de assistência à saúde, educação e lazer.

A Sociedade Viva Cazuza nasceu do peso da ausência de Cazuza. Após seu falecimento, Lucinha, que se dedicava o tempo todo aos cuidados do filho, se viu como alguém sem função ou motivação na vida. Depois do luto, antigos amigos de Cazuza do meio musical entraram em contato com Lucinha para que ela se tornasse voluntária na luta contra a AIDS.

Afinal,ela,mais que ninguém sabia tudo sobre a doença. Fora uma "enfermeira" dedicada para o filho durante três anos,presenciou todos os momentos delicados consequentes da doença, consultou dezenas de médicos, saiu do país mais de uma vez em busca de uma cura para seu menino, recorreu até mesmo a tratamentos não convencionais e  pesquisas que deram a ela amplo repertório no que dizia respeito a AIDS.

Assim ela acabou por se tornar voluntária no Hospital Gaffré e Guinle, na Tijuca, que na época,plenos anos 90, mantinha o maior número de leitos para pacientes contaminados do Rio de Janeiro. Além de arrecadar doações para os doentes, Lucinha se viu passando o dia no hospital cuidando de outras pessoas, que possuíam o mesmo mal que seu filho. Assim,3 meses depois, a Sociedade Viva Cazuza nasceu, com o primeiro nome social de Amigos da Décima Enfermaria do Hospital Universitário Gaffre e Guinle.

Se unindo com a vice-presidente da futura Sociedade, Lilibeth Carvalho, Lucinha passou a levantar verbas, receber doações, promover shows, reformar enfermarias e berçários do hospital. Arrecadou mais de dez televisões, uma para cada enfermaria. Todas as televisões do antigo apartamento de Cazuza, seu videocassete e sua geladeira foram doadas ao Gaffre e Guinle, além dos direitos autorais das musicas de Cazuza e o dinheiro arrecadado nos eventos em homenagem a ele.

Lucinha manteve por dois anos seus trabalhos sociais no hospital Gaffre e Guinle, com a certeza de ter contribuído para aliviar o sofrimento de alguns. Além disso, o trabalho no hospital havia ajudado muita na superação de sua perda pessoal.

Porém, nas inúmeras conversas com os pacientes, Lucinha notou que a maioria deles não tinha para onde ir ao fim dos tratamentos. Seja graças ao preconceito ou paradigmas envolvendo a AIDS na década de 90, ainda no auge da doença, muitas vezes Lucinha teve de convencer uma mãe a levar seu próprio filho infectado para a casa.

Refletindo sobre essas inúmeras situações, ela entrou em contato com a Comissão Estadual da AIDS, desenvolvendo com eles a possibilidade de se abrir uma casa para abrigar pacientes soropositivos. Na época, a Casa Vida, em São Paulo, na Barra Funda,era uma das pioneiras a realizar esse tipo de trabalho com sucesso. Lucinha visitou essa e outras inúmeras instituições do gênero, e saiu do país para conhecer ONGs internacionais com o mesmo objetivo.

Decidiu, então, ela mesma abrigar crianças soropositivas. Em um busca de um local, pediu uma audiência ao recém-eleito prefeito do Rio,Cesar Maia, que foi muito solicito e lhe ofereceu dez imóveis a escolha de Lucinha. Em março de 1993, oficialmente, a Sociedade Viva Cazuza se tornou um espaço físico, localizada na Rua Pinheiro Machado, 39, no Bairro Laranjeiras, no Rio. Depois da reforma para o acolhimento das crianças, o primeiro a chegar foi o menino Natalino, aos cinco meses de idade, numa casa da FEBEM em Santa Cruz. Tinha herpes, pneumonia, dor de ouvido, sarna, piolho e assaduras. Em três dias, já haviam mais três crianças. E depois de uma semana, mais duas. Em 1995, a casa de Dona Lucinha já portava mais de 30 crianças, enviadas pelo Juizado de menores, hospitais públicos ou familiares. A Sociedade Viva Cazuza se tornou referência e dona Lucinha um ícone na luta contra a AIDS.

                      Lucinha ainda nos anos 90,com as crianças e a primeira van adquirida pela Sociedade Viva Cazuza (FONTE: Blog Sociedade Viva Cazuza) 



Almoço com as crianças acolhidas. (FONTE: TPM)


Voluntários na recreação com as crianças (FONTE: Blog Sociedade Viva Cazuza)


A sociedade vive, basicamente, dos direitos autorais de Cazuza e das doações de pessoas comuns e artistas brasileiros que abraçam a causa das crianças soropositivas.

“Quando olho para minhas crianças na Sociedade Viva Cazuza, me sinto necessária. A força que me impediu de sucumbir ao desespero de não suportar a ausência de meu filho vem daqueles olhinhos esperançosos, essa gente pequena que ainda tem chance de conhecer a cura da AIDS.” Diz Lucinha. “Através deles procuro me encontrar um pouquinho com Cazuza”.

FONTE: Jornal O Globo 


A sociedade Viva Cazuza já está em funcionamento há 25 anos. Desde então, muitas crianças já passaram pela doce casinha azul que se torna um lar para quem precisa. Lá elas são bem cuidadas, alimentadas, protegidas e educadas por professores voluntários. A casa recebe doações do Brasil todo, de fraldas, roupas, alimentos, além de receber voluntários para recreação com as crianças. Todas as quintas feiras, a casa é aberta para visitação do publico, que além de interagir e receber o carinho das crianças pode visitar um quartinho todo especial feito por Lucinha com objetos pessoais de Cazuza. E através desse lindo projeto, Cazuza segue vivo em cada criança salva pela ONG.



 Espaço do Cazuza na Casa. (FONTE: GEOVANA FERREIRA) 


Quer saber como apoiar a  Sociedade Viva Cazuza para que ela continue mudando a história de tantas crianças? 

Visite o site vivacazuza.org.br para realizar doações, fazer compras no bazar e conhecer mais sobre os trabalhos desta ONG. O site também é um portal de noticias, informações e auxilio sobre a AIDS e promove frequentemente palestras para conhecimento e prevenção do HIV.












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