Embrião do amor


Por Ana Luiza Antunes
Projeto Coração Família – Incentivando o acolhimento e solidariedade

Família, aconchego e proteção. Assim que chegamos ao mundo, recebemos o presente mais precioso que um ser humano poderia ganhar. Nós somos feitos de relações, convivência e laços bem feitos. Nosso primeiro contato com o mundo externo, se inicia na intimidade do ninho acolhedor e lá que construímos nosso castelo ético e moral.

Cada tijolinho é composto por todo aprendizado adquirido no âmbito familiar. Crenças e valores são moldados conforme nossos exemplos.  Aprendemos como nos portar diante da sociedade, como tratar as pessoas e como compreender as diferenças impostas por ideologias estreitas. Cada um de nós é feito por uma semente plantada em nossos corações, sementes essas que foram colocadas por nossa família e que irá direcionar nossas escolhas e caminhos ao longo da vida.

Famílias podem ser planejas, podem acontecer por acaso, podem continuar uma tradição antiga ou mesmo fazer nascer uma nova história. Podem ser grandes, pequenas e até virtuais, compostas por duas mães, dois pais, por avós como pais ou mesmo por animais. Mas na verdade, o que faz nascer a família é a união entre as pessoas. União que nasce do amor incondicional, da compaixão, da vontade de ajudar e transformar vidas e que nos agrega o alicerce do caráter, responsável por moldar o comportamento de gerações futuras. 

“A educação humana de uma única pessoa pode impulsionar a mudança total do mundo e de um país, além de ser capaz de mudar o destino de todos”

Balanços ecológicos e confortáveis – Crianças aprendem a reciclar itens do meio ambiente

Se existe amor, existe solidariedade, preocupação, carinho e principalmente o querer bem. Afinal, família se sacrifica pelo outro, ama incondicionalmente e está presente em todos os momentos.

Assim como uma grande árvore que segura seus galhos em um comum estado de proteção, as famílias são galhos unidos pela mesma raiz, fortes e resistentes aos acasos da vida. Nossos amigos podem ser vistos como famílias também, já que construímos laços que podem durar por uma vida inteira. Independentemente de ser de sangue ou não, famílias são sempre do coração.

O projeto, Centro de Convivência Familiar Coração Família, tem justamente esses valores em suas atitudes. Transformar vidas de crianças e jovens carentes, afetiva e moralmente, é o principal objetivo do espaço.  Agregar conhecimento, respeito ao próximo e conhecer um pouco mais sobre si mesmo é o que esses jovens e crianças aprendem diariamente no convívio, garantindo assim, um futuro melhor para elas.

O projeto também incentiva e proporciona o respeito e cuidado ao Meio Ambiente, ensinando sustentabilidade e cidadania, além de promover através do protagonismo infanto-juvenil, o convívio familiar e a cultura de paz.

Entender os princípios da ética e transparência faz com que a mentalidade dessas crianças evolua em cidadãos do bem, na qual irão disseminar o pacifismo e a solidariedade por onde forem.


A UNIÃO QUE FAZ DIFERENÇA


Localizado em uma casa simples e singela, o Coração Família foi criado pela já falecida Aparecida Santo de Lima, mais conhecida como Tia Cida. Após perceber que o terreno abandonado em frente a sua casa estava sendo alvo de abrigo para moradores de rua e usuários de droga, Dona Cida teve a inteligente ideia de criar um espaço mais adequado para as pessoas que precisassem de abrigo. Dessa forma, com a ajuda da família, rodeou o terreno com garrafas pets e construiu pequenos espaços para promover atividades variadas.

Tia Cida: Idealizadora, fundadora e eternamente presidente de honra do Coração Família - “Se podemos sonhar, também podemos transformar nossos sonhos em realidade com certeza!”

Conforme o espaço foi ficando pronto, Dona Cida abria as portas para as crianças e suas famílias se sentirem à vontade. Com o tempo, o projeto cresceu e hoje atende mais de vinte jovens e crianças há mais de 26 anos. Atualmente é ministrado por Carlos Lima, filho de Cida, e por Elaine Melo, também responsável pelo projeto.


Devido a um câncer no pulmão que Cida escondeu de seus familiares, faleceu em 2015, mas o projeto continuou da maneira que pôde, com parcerias e ajudas voluntárias. 





Nesse projeto é possível encontrar crianças de todas as idades, na qual se enquadram em diferentes atividades de acordo com a faixa etária. Lá eles criam laços de afetividade tanto com as outras crianças quanto com os voluntários que ajudam em seu desenvolvimento como seres humanos.

As atividades começam cedo e a partir das nove horas da manhã o espaço já está lotado. Mas antes de iniciar as brincadeiras, eles são recebidos com um café da manhã. Para que isso fosse possível, uma padaria perto do local passou a realizar doações de pães para o projeto, na qual já é parceiro há mais de dois anos. As mães também se oferecem para ajudar nesse processo, assim ficam perto de seus filhos e acompanham sua evolução. Geralmente quem mais está presente é a figura materna, por conta das limitações de seus pais.


Café da manhã oferecido para jovens e crianças acolhidas no Coração Família

Após receberem a energia da refeição mais importante do dia, as crianças são divididas e seguem para a realização das atividades. As mais novas participam de oficinas de desenho e pinturas com tinta guache, desenvolvendo seu lado criativo, enquanto as mais velhas realizam uma roda de conversas com Anna Karolina, coach voluntária do projeto, na qual trabalha com eles seu desenvolvimento pessoal.

 Além disso, recebem também atendimento psicológico, mas geralmente são aquelas que vêm do Conselho Tutelar de Jabaquara e precisam de orientação voluntária, além de abrigo por falta de vaga.

Durante a conversa, a coach os incentiva a correr atrás de seus sonhos e lutar pelo que desejam. Mostra a eles que as oportunidades valem para todo mundo e que ninguém é melhor ou pior do que ninguém.

Assuntos como prevenção sexual, bullying e mercado de trabalho também são abordados durante a conversa. De forma mais dinâmica, os jovens tiram todas as suas dúvidas e pedem conselhos de como se comportar em uma entrevista de emprego, por exemplo. Experiências vividas dentro da escola também são compartilhadas, como o dia que defenderam o colega que estava sendo maltratado.

ESTIMULANDO O CONVÍVIO FAMILIAR

No entanto, as atividades não são voltadas apenas para as crianças. Os pais também possuem seu momento no projeto ao longo da semana. Às segundas-feiras, um psicólogo voluntário realiza consultas com as mães para auxiliá-las em problemas familiares. Muitas crianças do projeto vêm de famílias muito simples e carentes, com quase nenhum alicerce e apoio. Os pais geralmente são alcoólatras ou estão presos. Logo, assuntos como alzheimer, droga, violência doméstica e depressão, são bem focados para trabalhar o emocional e o subconsciente desses pais.

Para dar o mínimo de oportunidade para os filhos, as mães trabalham o dia todo como domésticas e não tem tempo para dar a atenção que eles precisam, fazendo com que a ligação materna se distancie conforme as crianças vão crescendo. De acordo com Elaine Melo, o rendimento familiar dessas crianças com seus parentes melhorou muito após as terapias realizadas, o afeto voltou a ser mais valorizado e a atenção passou a ser mais frequente.

Já nas quintas-feiras, as mães recebem aula de alfabetização para adultos, ministrados pela Dona Mariazinha, voluntária e pedagoga do projeto. Durante as aulas, a professora desenvolve com elas não só o conhecimento formal, mas suas autoestimas como mulheres. Mariazinha as incentiva em seus pequenos passos, mostrando cada evolução atingida e despertando a vontade de cuidar cada vez mais de si mesmas. Dessa forma, as mães são motivadas a cuidar do seu próprio bem-estar, entendendo que elas podem sim ter um momento dedicado somente para elas.




Às sextas-feiras o projeto recebe a ajuda de uma advogada voluntária, que auxilia nos processos jurídicos das famílias, como pensão não recebida e documentos residenciais. Os casos ficam em sigilo entre o cliente e a advogada, portanto, as únicas notícias que o Projeto recebe são quando ganham algum caso na justiça, melhorando a qualidade de vida das famílias.


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Ao longo das semanas o projeto recebe visitas inesperadas também. Os voluntários do local, por trabalharem em diversos locais e ás vezes, atuando em outra profissão, acabam levando pessoas conhecidas para o projeto, como artistas de televisão, do mundo da música, do futebol e até de plataformas digitais. Dessa forma, o incentivo oferecido pelo Coração Família a essas crianças aumenta ainda mais quando veem em seu ídolo o que elas podem ser.

Assim como qualquer um de nós, essas crianças só querem atenção e carinho de alguém. O que esse projeto proporciona é mais do que compaixão, é a transformação de pequenos seres humanos em grandes pessoas. O mundo precisa de indivíduos capazes de conviver em sociedade, sem distinção de cor, sexo, origem, discriminação e intolerância.

Os laços feitos dentro do Projeto proporcionam as crianças o desejo de fazer novas amizades e aceitar todos que precisam de ajuda, estão excluídos socialmente ou não possuem auxilio. A corrente do bem se estende por uma vida inteira.

Projeto Coração Família: Conheça essa corrente do bem!

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